quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Não quero ser Livre.

Sábado (11/02/2006) o Reverendo Augustus Nicodemus publicou um artigo/post entitulado: “[Mais de] Cinco Pontos do [Meu] Calvinismo”. Eu ia deixar meu pitaco respondendo a um comentário deixado por um leitor do blog, mas acabou ficando tão grande que resolvi fazer meu próprio post.

M. G. deixou o seguinte comentário depois de uma breve discussão com outros leitores (essencialmente sobre a doutrina de predestinação):
"...ninguém pode ser obrigado a amar alguém. Em outras palavras, se não há liberdade de escolha, como pode haver verdadeiro amor? Como um pai pode obrigar um filho a amá-lo, retirando-lhe a liberdade de escolha? Não seria o mesmo que construir um robô programado para amar? Que valor teria um amor assim? Se Deus criou o Universo e o homem por amor, como compreender que esse amor seja "pré-programado"?"

O que eu não entendo é o por quê dessa busca incessante pela VERDADEIRA LIBERDADE. Baseado no comentário acima, podemos formar a seguinte equação: somente "verdadeira liberdade" resulta em "amor verdadeiro". Logicamente, um arminiano para ser coerente deve admitir que então TODA escolha dele para ser "verdadeira", deve ser feita com "verdadeira liberdade".

De onde vem essa idéia? Não creio que seja coerente nem com o nosso dia-a-dia. Será que um pai não pode restringir as escolhas de seu filho que ainda é criança (não brinque na rua, não mexa na tomada, não beba veneno). Isso não quer dizer que o pai não ama o filho e nem resulta no fato de seu filho não amar o pai. Amo meu pai, porém quando crescendo tive muitas escolhas não disponibilizadas, limites apontados e alternativas removidas dos meus planos... Isso não afetou em nada meu amor por meu pai, minha interação, meu apreço, etc... Aliás, a restrição das liberdades é o que ajudou a formar o meu caráter, definiu escolhas futuras, e moldou minhas crenças.

Não precisei de liberdade, sem restrição nenhuma, para aprender, viver minha vida e ser feliz. Por quê então, essa busca infinita pela "verdadeira liberdade"? Será que não enxergamos que NENHUMA de nossas escolhas é realmente livre? Que sempre existe algo nos puxando para um lado ou outro, ou até restringindo as nossas escolhas?

Será que não enxergamos que não sabemos o que é melhor pra nós? E que com "verdadeira liberdade" somente nos esfolariamos?

Filipenses 2:13 “Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.”

Quem exerce controle sobre quem?

16 Comments:

Anonymous Marcos M. Grillo said...

Daniel,

É uma pena que você (aliás, ninguém no blog do Rev. Augustus) não tenha respondido às indagações que eu levantei. A impressão que fica é a de que as pessoas não querem encarar essas questões, preferindo esconder-se atrás de frases prontas (por exemplo, apelando a um "paradoxo insolúvel") e de um dogmatismo que parece rechaçar toda crítica.

Não devemos confundir "paradoxal" com "ilógico". Sem dúvida há paradoxos na fé cristã (a Encarnação, a dupla natureza de Cristo, a Trindade etc.), mas o dogma da (dupla) predestinação é simplesmente ilógico, não faz o menor sentido. E de nada adianta dizer que tal dogma é fundamentado na Bíblia, pois a Bíblia também oferece fundamentos tanto para a negação da (dupla) predestinação quanto para a afirmação da liberdade do ser humano (ex.: Deut. 28; Mt. 10.32; Mt. 11.28-30; At. 2.21; Rm. 10.13; Ap. 3.20).

Como escrevi, se Deus criou o Universo e o homem por amor (isto é, para amar e ser amado), não faz sentido que Ele tenha "pré-programado" aqueles iriam amá-lO, em vez de deixar que cada ser humano escolhesse amá-lo ou não. Além de sem sentido, a predestinação faz de Deus um ser absolutamente injusto (e como se confunde essa injustiça com "soberania"!), pois criou todos os seres humanos iguais, mas escolheu apenas alguns para a bem-aventurança eterna, sem dar oportunidade de salvação aos "perdidos". Ou seja, alguns seres humanos Deus conscientemente destina ao inferno, e fim de papo!Que tipo de Deus é esse que simplesmente se recusa a dar uma oportunidade a quem Ele não escolheu?! Que tipo de pai escolhe uns filhos e pretere outros (ah, mas só são filhos de Deus os cristãos, ou melhor, os eleitos...!)?

Por fim, a predestinação torna o cristianismo absolutamente exclusivista, inviabilizando totalmente a salvação para quem não for cristão (ou melhor, eleito). Não estou defendendo o relativismo nem o pluralismo religioso, mas não vejo como podemos assumir uma tal postura exclusivista e condenatória. A Deus, no fim das contas, caberá o julgamento.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006 4:55:00 PM  
Blogger Davi Eduvirges said...

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006 5:32:00 PM  
Blogger Davi Eduvirges said...

Marcos, em primeiro lugar, é uma pena você achar que ninguém respondeu suas indagações (creio que ou você não foi suficientemente claro ou ignorou as respostas que foram dadas por várias pessoas, cada um em uma pequena parte de seu comentário).
Prontifico-me aqui a respondê-lo (se bem que não prontifico-me a iluminá-lo, só Deus pode fazê-lo)
Realmente paradoxal não é ilógico, ninguém disse que era, e ninguém que se diz reformado pode defender uma posição ilógica, visto que ser reformado é entender a Bíblia de forma lógica e sistemática.
Quanto à (dupla) predestinação ser ilógica, ocorre que tal falta de lógica só pode ser encontrada se analizarmos a Bíblia com pressupostos extra-bíblicos (que infelizmente parece ser o que você está fazendo)
Sobre os textos citados, nenhum deles nega a predestinação, no máximo apenas nega o determinismo (ou seja, negam que Deus enviaria o homem pro inferno mesmo que o mesmo quisesse se converter, o que lógicamente não é verdade)
Você afirma que Deus criou o homem para amar e ser amado, ocorre que tal citação é extra-bíblica e puramente filosófica, não podemos compreeender a vontade de Deus de forma extra-bíblica (aqui é onde ocorre todo o seu erro). Da mesma forma entender que o homem é pré-programado encontra várias barreiras, visto que nós somos pré-programados para a vida de adultos por nossos pais enquanto criados pelos mesmos, isso não implica necessáriamente a existência de um homem-robô (se foi esse o sentido que você quis expressar, em nenhum momento tal situação foi exposta no tempora-mores).
Não entendo também como o criador da justiça pode ser considerado injusto, lógicamente não é certo matar, porém Deus é injusto quando tira a vida de um ser humano?
Quanto ao seu questionamento sobre se Deus dá a "oportunidade" para os homens se arrependerem, diria que Deus dá a oportunidade, mas a "possibilidade" só pode ser alcançada pelos eleitos, pelo simples fato do homem não ser capaz de buscar a Deus ( e isso quem fala é Davi[o salmista, não eu] e Paulo), o que nós não podemos é querer que Deus simplesmente abra as portas dos céus para todos os homens e abdique da sua justiça.
Quanto à sua colocação de que Deus escolhe uns filhos e pretere outros, novamente você envereda por sobrepor conceitos filosóficos a conceitos bíblicos e parece-me que conscientemente, visto que você mesmo aponta a resposta da sua pergunta, dando a entender que conhece inclusive a base bíblica para tal afirmação.
Realmente a predestinação é exclusivista, pois dá a Deus a "exclusiva" soberania sobre tudo que Ele criou. Não por criar uma casta ou elite de seres humanos, pois todos os cristãos sabem que só são salvos por misericórdia divina, é nesse sentido que a Bíblia diz que nós O amamos porque Ele nos amou primeiro.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006 6:16:00 PM  
Anonymous Marcos M. Grillo said...

Davi,

Talvez eu devesse dizer que ninguém respondeu satisfatoriamente as minhas indagações.

De fato, ninguém, no blog Tempora, disse textualmente que "paradoxal" é o mesmo que "ilógico", mas a confusão ficou patente em alguns comentários.

Quanto a usar argumentos ou pressupostos extra-bíblicos, ora, você não faz o mesmo? Ou seja, não lança mão de argumentos que não estão explícitos na Bíblia (ainda que supostamente para ratificar o que a Bíblia diz)? Do contrário, não deveria se limitar a citar passagens bíblicas?

Confesso que até agora não entendi como a predestinação pode não ser determinista. Ou seja, ainda não ficou suficientemente clara pra mim a distinção de entre calvinistas e hipercalvinistas. Parece-me que os hipercalvinistas são simplesmente aqueles que levam o calvinismo às últimas conseqüências, ou seja, que levam a sério as suas implicações "lógicas", ao passo que os calvinistas parecem tentar "suavizar" o calvinismo. Nesse caso, somos inclinados a dizer que aqueles são mais coerentes que esses.

Se Deus não criou o homem para amar e ser amado, para que o terá criado? Fazer deduções lógicas a partir da Bíblia não significa necessariamente argumentar "extra-biblicamente".

É claro que nossa liberdade é condicionada por diversos fatores. Não obstante, resta um espaço de jogo que diz respeito à nossa liberdade de escolha, o que me faz lembrar de Deut. 28 ("Se ouvires...") e Ap. 3.20 ("Se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta...").

É óbvio que Deus não é injusto quando tira a vida de um ser humano, pois Ele é o dono da vida, só Ele a pode dar e tirar.

Ora, dizer que "Deus dá a oportunidade, mas a 'possibilidade' só pode ser alcançada pelos eleitos" é um tremento contrasenso, pra dizer o mínimo. De que adianta dar a oportunidade mas negar a possibilidade? De que vale uma oportunidade impossível de ser aproveitada?

Quanto à afirmação do "homem não ser capaz de buscar a Deus", como dizê-lo, se o anseio pela transcendência é inerente à condição humana (ou seja, todo homem anseia por Deus)? Não fosse assim, como explicar o fato concreto de que, desde tempos imemoriais, o homem busca a Deus nas mais diferentes tradições religiosas, algumas muito mais antigas que o cristianismo? E o que dizer acerca desses incontáveis homens e mulheres que, ansiando por Deus, morreram sem conhecer a Cristo?

Ora, manifestar espanto diante da concepção de um Deus que escolhe uns filhos e despreza outros não é "sobrepor conceitos filosóficos a conceitos bíblicos", antes é fruto da simples observação empírica. Você tem ou teve irmãos? Tem ou teve filhos? Mesmo que seja filho único e que nunca tenha tido filhos, deve saber do que estou falando. E se um dia vier a ter dois filhos, imagina-se capaz de escolher um e preterir outro? E será que você é mais amoroso, bondoso e magnânimo do que Deus?

Em nenhum momento eu neguei a soberania de Deus, nem o Seu amor por nós e por toda a Criação. Aliás, Deus não precisa de advogados calvinistas que defendam a Sua soberania. E se Ele é realmente soberano (e sabemos que é), quem somos nós para dizer quem Ele vai ou não salvar, e de que modo o fará? Mas os calvinistas, justamente os que mais veementemente defendem a soberania de Deus, afirmam, com absoluta convicção, que Ele só salvará os cristãos, e os cristãos eleitos (ou será que há eleitos em outras religiões? Como podemos conhecer os desígnios de Deus?).

Cabe a nós, enquanto cristãos, anunciar o Evangelho, mas o julgamento de cada indivíduo cabe tão-somente a Deus, "pois todos havemos de comparecer ante o tribunal de Deus" (Rm. 14.10).

No fim das contas, respeitar a soberania de Deus é deixar para Ele resolver a questão da salvação. Quem (ou o que) somos nós para discutir quem é ou não eleito de Deus, e quem Ele vai ou não salvar?

Sendo assim, se a Bíblia dá margem tanto para o determinismo (predestinação) quanto para o livre arbítrio, e se não temos, como no catolicismo, um magistério que dissolva as dúvidas, então eu prefiro crer na liberdade do homem para aceitar ou rejeitar a Deus, para ouví-lO ou se recusar a ouví-lo, para abrir ou não a porta. E se Deus não quis ser amado por robôs programados para amar (que amor artificial!), posso inferir que Ele respeita a liberdade humana, sem a qual não vejo como o amor possa ser genuíno.


"O sacrifício aceitável a Deus é o espírito quebrantado; ao coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus." (Salmo 51.17)

quarta-feira, fevereiro 15, 2006 7:02:00 PM  
Anonymous Darius Portela said...

Marcos,

Você afirmou que o homem busca a Deus nas mais diferentes tradições religiosas:
"Quanto à afirmação do "homem não ser capaz de buscar a Deus", como dizê-lo, se o anseio pela transcendência é inerente à condição humana (ou seja, todo homem anseia por Deus)? Não fosse assim, como explicar o fato concreto de que, desde tempos imemoriais, o homem busca a Deus nas mais diferentes tradições religiosas, algumas muito mais antigas que o cristianismo? E o que dizer acerca desses incontáveis homens e mulheres que, ansiando por Deus, morreram sem conhecer a Cristo?"

De fato, o poder e a natureza divina de Deus foram vistas claramente por homens, porém o homem trocou a glória de Deus por imagens feitas segundo asemelhança do homem mortal. Como está escrito em Romanos 1:18-25: "18A ira de Deus é revelada do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça, 19pois o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. 20Pois desde a criação do mundo os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma que tais homens são indesculpáveis;21porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e os seus corações insensatos se obscureceram. 22Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos 23e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis. 24Por isso Deus os entregou à impureza sexual, segundo os desejos pecaminosos dos seus corações, para a degradação dos seus corpos entre si. 25Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas criadas, em lugar do Criador, que é bendito para sempre. Amém." Vemos então que quando o homem participa das mais diferentes tradições religiosas, que ele está de fato buscando a si mesmo, e não a Deus.

Você também afirmou, "Mas os calvinistas, justamente os que mais veementemente defendem a soberania de Deus, afirmam, com absoluta convicção, que Ele só salvará os cristãos".
Não somente os calvinistas afirmam isso, mas Lucas também afirma com absoluta convicção que a salvação é somente através da pessoa de Cristo: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos” (Atos 4:12). Vemos então que há somente um caminho, uma verdade, e uma vida. Ninguém vem ao pai senão por Cristo. (João 14:6)

Você também disse: "Além de sem sentido, a predestinação faz de Deus um ser absolutamente injusto (e como se confunde essa injustiça com "soberania"!), pois criou todos os seres humanos iguais, mas escolheu apenas alguns para a bem-aventurança eterna, sem dar oportunidade de salvação aos "perdidos"."
Você está afirmando então que se Deus punisse todos os homens pelos pecados deles, ele seria injusto? Enfim, os nossos pecados precisam de punição, e foi por isso que Cristo morreu, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Paulo concorda que a predestinação não significa que Deus é injusto quando diz em Romanos 9:18-20 que,” Deus tem misericórdia de quem ele quer, e endurece a quem ele quer… …quem é você, ó homem, para questionar a Deus?”

Deus não é injusto, e sim gracioso quando salva alguns quando todos estão perdidos e mortos em seus delitos e pecados, já condenados pelo justo juiz.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006 7:43:00 PM  
Anonymous Marcos M. Grillo said...

Darius,

A pluralidade (não confundir com "pluralismo") das manifestações e tradições religiosas é um fato incontornável, ou seja, não adianta tapar o sol com a peneira. Ainda que não adotemos o uma teologia pluralista das religiões, segundo a qual haveria diversos caminhos do homem até Deus, a verdade é que resta o desafio de refletir sobre essa multiplicidade de formas religiosas pelas quais os homens, ao longo do tempo e nos quatro cantos do planeta, têm buscado (re)encontrar o fundamento transcendente da existência. E essa busca relaciona-se não só com o fato da Natureza espelhar o Criador, mas também com o anseio, intrínseco à condição humana, pela transcendência, anseio que esse que está na origem de todas as religiões.

Nós, enquanto cristãos, cremos que Cristo vem ao encontro desse anseio, satisfazendo-o plenamente, de modo tal que nenhuma outra religião poderia fazer. Se somos criaturas de Deus, foi Ele mesmo quem nos criou com essa necessidade e essa capacidade de buscá-lO. Mas, dada a precariedade radical da nossa condição, Ele enviou Seu Filho a fim de nos reconciliar com Ele, pois só mesmo Deus, tornando-se um de nós, poderia atualizar todas as potencialidades do homem, vencendo o pecado (isto é, a precariedade) na carne. Por isso cremos que em Cristo temos a plenitude da revelação de Deus, sendo Ele o único mediador (João 14.6) pelo qual todos os homens, tanto os cristãos quanto os não-cristãos, poderão ser salvos (inclusivismo teológico). Nesse sentido também podemos entender o pecado original no qual todos nós nascemos, não como fruto da desobediência de Adão, mas como algo relacionado à nossa própria condição enquanto seres humanos. Ou seja, todo ser humano é precário (pecador). E assim também podemos entender a fórmula luterana segundo a qual o crente é "simultaneamente justo e pecador", pois somos justificados perante Deus pela graça e mediante a fé em Cristo, mas continuamos com nossa natureza pecadora (isto é, precária). Sei que essa não é a intepretação ortodoxa da Bíblia, sendo antes uma interpretação filosófica, a qual, não sendo absurda nem contrária à essência da doutrina cristã, merece ser levada em consideração.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006 1:11:00 PM  
Blogger . said...

Darius,
vou usar o seu proprio texto para ir contra a sua própria ideia.
voce disse:
"Será que um pai não pode restringir as escolhas de seu filho que ainda é criança (não brinque na rua, não mexa na tomada, não beba veneno)."

usando a mesma lógica:
Será que um pai pode restringir as escolhas de seu filho que ainda é criança (não brinque na rua, não mexa na tomada, não beba veneno) e então determinar que ele vai obrigatoriamente ir para o inferno(beber veneno obrigatório).

Sim, seu pai alterou seus planos para te proteger. Mas ele nunca ia predestinar que você, por nenhum motivo aparente, fosse para o inferno. Ou seja, que Pai que tem controle sobre os filhos, decidiria por simples soberania, mandar um dos seus filho para o inferno, sem ele poder escolher não ir??

Imagine ainda: voce vai ter dois filho gemeos. você sabe que nenhum dos dois vai te amar porque eles são incapazes disto. Ou seja os dois vão para o inferno. Mas sem motivo aparente você decidiria desta forma: vou ter estes filhos, mas vou predestinar um para o céu e o outro vou deixar ele na sua incapacidade de me amar e então manda-lo para o inferno.? você faria isto????? que amor é este de pai????

Se tem uma coisa que calvinista não da bem é usar exemplo Pai e filho para explicar predestinação. Pois cai na injustiça.

O mais interessante é que o exemplo perfeito do Deus Pai está no filho pródigo, que mesmo o pai sabendo que o que o filho estava escolhendo era o pior, ir embora, que cai direitinho nos exemplos de "não brinque na rua" pois se o pai do filho prodigo fosse como este Deus que age totalmente na liberdade do filho, ele não deixaria o filho prodigo ir embora. Mas deixou. Deixou, mesmo sabendo que poderia nunca mais ver o filho amado. Mas o Pai deu esta liberdade para ele. E depois acontece o mais lindo. O filho volta para casa. E a cena mais linda é imaginar o Pai correndo ao encontro do filho. quando o filho dava um passo o pai dava 10 passos para encontrar o mais rapido com o filho. E o que mais me toca é pensar, que Deus que pode estar em todo lugar ao mesmo tempo, ele mesmo assim, quando é para correr em encontro ao filho, nenhum tempo pode ser perdido. Por isto Deus corre para junto de nós. È lindo.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006 1:58:00 PM  
Blogger Daniel Portela said...

Obrigado pelos comentários Marcos e Sueño. Agradeço principalmente por, mesmo discordando, sendo cordiais e gentis com seus comentários contendo seus pontos de vista.

Vamos a revanche então :-)

Primeiramente gostaria de perguntar: quem somos nós para questionar Deus e seus motivos? (O Darius já deu um versículo claro da Bíblia sobre isso). A batalha parece ser travada, nesse tipo de discussão, entre as definições de JUSTIÇA e AMOR de Deus.
Precisamos, então encontrar um equilibrio entre a JUSTIÇA dívina e o AMOR de Deus. Levado aos extremos nenhum desses dois atributos pode co-existir. A um extremo, Deus seria Justo se condenasse a todos a morte eterna no inferno pois todos pecaram e carecem da glória de Deus. Todas as nossas obras são como trapos de imundice. Ninguém merece salvação! Você não merece, eu não mereco, a pessoa mais bondosa do mundo não merece, e a pessoa mais má do mundo também não merece.Porém, em contraposto, Deus somente seria AMOROSO se ele salvasse a todos. E digo salvar por quê, se Deus realmente fosse amoroso (Ele é, mas aguentem comigo), ele não só daria a oportunidade para salvação, mas realmente salvaria a todos, evitando que um escapasse e fosse para destruição eterna, pois ele tem o poder para fazer tudo não tem? Justiça numa ponta e Amor em outra...Como então lidar com isso? Rejeitamos alguma características divínas em detrimento das outras?

A visão correta desse equilíbrio deve sempre partir do ponto de vista divino. Deus faz o que quer, quando quer e onde quer. Se Ele não pode fazer isso, negamos sua onipotência.
É necessário nossa compreensão da natureza humana no que se refere ao nosso relacionamento com Deus. Partindo da Bíblia, vemos que todo homem é mal, inimigo de Deus, cego, MORTO nos seus delitos e pecados e incapaz de fazer o bem (até aqui creio que concordamos pois existem vários versículos para todos esses pontos). Todo nosso ser foi afetado pelo pecado na queda de Adão, desde os nossos pensamentos, nossa consciência e nossas escolhas. Agora me respondam, como que alguém que é incapaz de escolher e fazer o bem, pode resurgir dos mortos (lembrem-se, estamos mortos nos nossos delitos e pecados) e escolher o maior BEM de todos que é Deus, para ele nos salvar.

Olhe, já não MERECEMOS isso pela nossa podridão, agora nós ainda escolhemos a Deus? Isso gera um problema, pois foi um ato nosso que gerou a salvação e não um ato divino, tornando a salvação sendo feita por uma “obra” nossa.

Enfim, a falha na lógica de ambos (Marcos e Sueño) que quero comentar é que: 1) Não merecemos nada, muito menos a salvação (minto, temos uma coisa sim que merecemos, que é a MORTE ETERNA), então o certo é afirmar que TODOS devem ir pro inferno. Ninguém pode cobrar NADA de Deus. Aí que entra o amor de Deus. Complementou sua JUSTIÇA salvando a seus eleitos, demonstrando portanto, seu AMOR. É precisamente aqui que encontramos o equilíbrio e não pendemos nem a Justiça divina para um lado e nem seu Amor.

Finalizando, se começarmos nossas discussões com a visão errada de nosso estado como humanos (pecadores), não será possível chegarmos num acordo sobre o que a Bíblia diz sobre predestinação, salvação e muitos outros assuntos. Esse deve ser nosso ponto de partida.

Abraço a todos e agradeço os comentários.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006 2:40:00 PM  
Anonymous Marcos M. Grillo said...

Daniel,

De fato, segundo a ortodoxia bíblica, todo homem é nascido em pecado por causa da queda de Adão, ou seja, por causa do erro de um homem (Adão), todos os homens tornaram-se culpados. O problema começa aqui. Como um homem pode ser culpado (e eventualmente condenado) por um crime que ele próprio não cometeu? Ora, se o erro foi de Adão, porque eu e você somos culpados? Nesse sentido, talvez devêssemos dizer que o pecado diz respeito à condição humana, ou seja, somos pecadores porque somos humanos.

Mas por que o erro de um homem (Adão) iria macular toda a espécie humana? Não deveria somente ele, Adão, ser responsabilizado pelo seu ato?

Uma solução racional (ainda que não ortodoxa) para esse problema poderia advir de uma "desmitificação" do relato do Gênesis, pela qual passaríamos a compreender Adão simplesmente como o ser humano em geral, e a sua "queda" como a queda de todos os seres humanos. Assim, o pecado deixaria de ser visto como um erro moral ou uma desobediência objetiva em relação a Deus, para ser entendido como algo relacionado o caráter essencialmente precário da condição humana, que nos torna incapazes de, pelas nossas próprias forças, (re)encontrar o fundamento da existência (Deus). Nesse sentido, o homem não mais seria um condenado à morte e ao inferno pelo pecado de outrem (Adão), mas estaria impossibilitado de, pelas suas próprias forças, "religar-se" com o fundamento da sua existência.

Foi por causa dessa precariedade inerente à condição humana que Cristo veio, para aniquilar, na carne (isto é, como homem), o pecado (a precariedade), tornando-se o único homem plenamente reconciliado com Deus ("Eu e o Pai somos um"). Tal reconciliação somente poderia ser realizada pelo próprio Deus, tendo em vista a precariedade que caracteriza o ser humano. E é pela fé em Cristo e na Sua vitória, e não nos nossos méritos, que somos justificados e salvos.

Veja que essa intepretação harmoniza-se com o "sola gratia" (pela graça gratuita Deus veio ao mundo, encarnando-se na pessoa de Cristo) e o "sola fide" (somente pela fé em Cristo, e não pelos nossos esforços, somos reconcilados com Deus).

Assim podemos compreender o amor e a justiça de Deus. Amor que Se encarnou em Cristo, dando-nos vida eterna, e justiça que leva em conta a liberdade e a responsabilidade de cada indivíduo (e não somente a de Adão). "Eis que estou à porta e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo." (Ap. 3.20). E todos havemos de comparecer diante do tribunal de Deus (Rm. 14.10), e Ele julgará cada um segundo as suas obras (Rm. 2.5-11).

sexta-feira, fevereiro 17, 2006 4:12:00 PM  
Blogger Daniel Portela said...

Prezado Marcos,

Agradeço pelo comentário. Porém a primeira parte inteira de seu argumento é filosófica e não bíblica. Não desejo aqui desmistificar Gênesis nem buscar outra filosofia que aparentemente possa fazer sentido se eu não encontrá-la na Bíblia. A bíblia deixa claro que o pecado de Adão e sua culpa passaram para nós e acho impossível lermos Romanos 5 e não vermos isso explicitamente. Agora, me corrija se estou enganado, mas me parece que a divergência de opiniões é derivada de diferentes visões de interpretação bíblica.

Fique na paz.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006 6:19:00 PM  
Blogger Marcos M. Grillo said...

"Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram." (Rm. 5.12)

Daniel,

A passagem acima, assim como todo o capítulo 5 de Romanos, não contradiz a interpretação que eu sugeri, desde que compreendamos Adão como "primeiro homem", isto é, o primeiro indivíduo da espécie humana, e o seu pecado (ou "ofensa") como a emergência da consciência, mediante a qual o homem distingue-se da natureza e adquire consciência de si. Não estou dizendo que a consciência (ou conhecimento racional) seja pecado, e sim que é por meio da consciência que o homem passa a poder ter conhecimento "do bem e do mal" (Gn 2).

A leitura que estou propondo não é, em essência, divergente da doutrina cristã. Mas é, como você observou, uma interpretação filosófica.

Um abraço.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006 6:53:00 PM  
Blogger Oswaldo Viana Jr said...

Olá Daniel,

sobre seu último comentário, creio que não é possível nenhuma interpretação bíblica que não seja ao mesmo tempo filosófica, i.e. toda leitura das Escrituras (ou de qualquer outra coisa) é feita através de "óculos", cujas lentes são "invisíveis", quando se enxerga através delas. E o calvinismo (ou o arminianismo) são justamente essas "lentes" através das quais se lêem a Bíblia. Ou seja, o calvinismo, sob certo aspecto, é também uma filosofia.

Mas o que eu gostaria de comentar é sobre a "busca incessante pela VERDADEIRA LIBERDADE", que você escreveu no post. O homem não possui liberdade: o homem É liberdade. Deixar de ser livre implicaria deixar de ser homem. Mas nós também sabemos que só em Deus podemos encontrar a verdadeira liberdade: "Se o Filho vos libertar..."

Concluindo, digo que os únicos atos inteiramente livres de que somos capazes são justamente estes: crer e amar. "Só" isso!

terça-feira, fevereiro 21, 2006 4:18:00 AM  
Blogger Daniel Portela said...

Prezado Oswaldo,

Obrigado pelo comentário.

Infelizmente discordo. Não enxergo a Bíblia através do Calvinismo. O Calvinismo não é minha filosofia de vida. Leio a Bíblia buscando ser o mais literal e fiel a palavra possível, sem nenhuma agenda para interpreta-la ou com conceitos pré-estabelecidos. Resultante dessa leitura mais literal eu obtenho o conjunto de idéias que o homem agrupou e chamou de "calvinismo". Veja que a minha fonte é somente a Bíblia interpretada fielmente. Portanto o meu modo de ver o mundo é através do óculos da Bíblia e não de nenhuma ideologia. Sendo assim, discordo de sua colocação de que o Calvinismo é minha lente. A Bíblia em si é minha lente para enxergar todas as coisas.

Agora, citando o seu comentário: "O homem não possui liberdade: o homem É liberdade." A princípio essa definição é bonita, porém, de onde você a tirou? É bíblica? Infelizmente eu nunca li nada na Palavra de Deus que remotamente se assemelhe a isso. E como a minha lente é a Bíblia, se isso não está contido nela, eu descarto.

Um abraço e fique na paz.

terça-feira, fevereiro 21, 2006 8:23:00 AM  
Blogger JOINCANTO said...

Gostei do que o Paulo Brabo escreveu e assino quase por inteiro o que ele disse lá no "post".

Não tenho a pretensão de explicar e saber tudo, mas penso que não existe nenhuma contradição entre a soberania de Deus e a liberdade de escolha do homem. Ele é Deus e pode tudo, mesmo estas coisas misteriosamente profundas.
O Deus que é revelado pelas Escrituras nunca age numa perspectiva controladora (o diabo é que actua dessa forma), mas sempre numa perspectiva amorosa, justa e até respeitadora das escolhas (boas e más) do homem. Deus é um Soberano amoroso e não um controlador compulsivo.


Em Cristo.

JO

segunda-feira, fevereiro 27, 2006 2:05:00 PM  
Blogger Daniel Portela said...

Prezado Jo,

Creio que o Reverendo Augustus Nicodemus já respondeu suficiente suas afirmações lá no blog deles na seção de comentários.

abraço,

Daniel

quinta-feira, março 02, 2006 8:00:00 AM  
Anonymous Anônimo said...

Nossa li tudo agora
Em 2016��
Pessoas extremamente inteligentes cada um defendendo sua opinião e fazendo a exposição das escrituras.
Isso deveria ir ao ar, eu adoria assistir esse debate e ouvir ambas as partes. Todos estão de parabéns ����

terça-feira, abril 05, 2016 4:07:00 PM  

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